Resposta rápida: preparo de área não é o que você faz na semana do plantio. A análise de solo precisa sair pelo menos três meses antes, o calcário quer no mínimo 60 dias para reagir, e a limpeza da área pede a primeira metade da seca. Quem começa quando a chuva chega planta tarde, e plantar tarde empurra a formação do pasto para o ano seguinte.

Este artigo é a ordem das operações, com os prazos de cada uma e os erros que mais derrubam formação de pasto. Tudo que tem número aqui vem de publicação da Embrapa, com o link no meio do texto.

Linha do tempo do preparo de área para plantar capim, da coleta de solo três a seis meses antes até a semeadura com a semente coberta, na chuva estabelecida.
O calendário do preparo, da análise de solo até a semeadura.

Por que o preparo decide mais que a semente

Duas razões, e as duas são de bolso.

A primeira é o custo. A Embrapa Gado de Corte registra que o desmatamento e o preparo do solo são os fatores que mais encarecem a formação de pastagem. É onde está o dinheiro grande, e é o que ninguém quer pagar duas vezes.

A segunda é que o preparo aparece no topo da lista de causas de fracasso. A Embrapa Acre, num capítulo sobre reforma de pastagem, cita entre as causas de insucesso o preparo de solo inadequado, a falha no controle de plantas daninhas, o plantio em época errada e a correção de fertilidade malfeita. Dessas quatro, três são preparo.

O calendário: o que fazer, e quando

QuandoO que fazerPor quê
3 a 6 meses antesColetar solo e mandar analisarDá tempo de analisar, interpretar e comprar calcário e adubo
Primeira metade da secaLimpeza da área: tocos, troncos, cupinzeiro, formigueiroSobra a segunda metade da seca para o preparo
No mínimo 60 dias antesAplicar e incorporar o calcárioO calcário precisa de tempo e de contato com a terra para reagir
Meio da seca em dianteGradagem pesadaElimina a vegetação e incorpora o material
Véspera do plantioGradagem niveladora e aduboMata a invasora recém-nascida e deixa a cama pronta
Chuva estabelecidaSemeadura e cobertura da sementeA semente precisa de umidade embaixo, não só na superfície

A data do plantio em si a gente detalhou em quando plantar capim. Aqui o assunto é o que vem antes.

Começa pela análise de solo

A análise é o único jeito de saber quanto corrigir. Sem ela, calcário e adubo viram chute, para mais ou para menos, e os dois erros custam caro.

A Embrapa Acre é direta no prazo: o solo deve ser coletado pelo menos três meses antes da data de plantio, para dar tempo de analisar, interpretar e comprar os insumos. Seis meses é ainda melhor.

Três detalhes de coleta que mudam o resultado:

  • Profundidade. Para formar pastagem, a amostra é de 0 a 20 cm. Aquela de 0 a 10 cm é para adubação de manutenção, em pasto já formado.
  • Quantidade de pontos. A Embrapa recomenda no mínimo 20 amostras simples por gleba, coletadas caminhando em ziguezague. Outra publicação da casa põe o piso em 10 pontos por talhão, com glebas de no máximo 10 hectares e uniformes em cor, topografia e textura.
  • Onde não coletar. Perto de cupinzeiro, de esterco, de toco, de cocho de sal, de malhadouro e de curral. Esses pontos dão um solo que não existe no resto do talhão.

Calcário: tempo para reagir, e terra por cima

Calcário não corrige nada no dia em que cai no chão. Ele precisa de tempo e de contato com a terra.

O prazo mínimo que as publicações da Embrapa repetem é de 60 dias antes do plantio, e o “passo a passo” da Embrapa Gado de Corte fala em 60 a 90 dias. O livro da Embrapa Cerrados sobre corretivos em pastagem vai além e recomenda que a aplicação e a incorporação sejam feitas, de preferência, ainda no fim da estação chuvosa anterior ao plantio.

Sobre incorporar, o mesmo livro é claro: no estabelecimento do pasto o calcário deve ir a lanço, o mais uniforme possível, e ser incorporado a no mínimo 20 cm de profundidade. Calcário jogado por cima e deixado lá corrige menos, no curto prazo, do que o mesmo calcário incorporado com arado ou grade.

Um jeito prático de dividir, que está no passo a passo: metade da dose antes da aração e a outra metade depois da primeira gradagem.

Quanto corrigir depende do capim que você escolheu

Essa parte quase ninguém conta, e ela liga o preparo à escolha da cultivar.

O alvo da correção não é o mesmo para todo capim. O livro da Embrapa Cerrados trabalha com faixas de saturação por bases, que é quanto do solo está ocupado por cálcio, magnésio e potássio em vez de acidez:

Exigência do capimAlvo de saturação por bases
Tolerante à acidez30% a 35%
Medianamente tolerante40% a 45%
Exigente50% a 60%

Repare no que isso significa na prática: escolher um capim tolerante é escolher corrigir menos. A própria Embrapa registra que existem controvérsias entre as recomendações de calagem para pastagem no Brasil Central, então trate a faixa como referência e a análise como a palavra final. Qual capim pede o quê, a gente organizou em qual capim plantar.

Fósforo é o adubo da formação

Se tem um nutriente que decide o estabelecimento, é o fósforo. A Embrapa Acre diz que a adubação fosfatada é a mais importante para o sucesso da renovação, por causa da demanda da forrageira principalmente nos primeiros 30 dias depois da germinação.

Na prática, o fosfatado pode ir a lanço antes da passagem da grade niveladora, ou junto com a semeadura, se você usar semeadora com adubadeira. Em plantio direto, a recomendação é preferir fonte solúvel.

O nitrogênio tem regra diferente, e ela depende do tipo de preparo. Em preparo mecanizado, o revolvimento do solo libera nitrogênio e em geral não há necessidade de adubar com ele na formação. Em plantio direto, a mesma publicação diz o contrário: o nitrogênio é imprescindível, porque a palhada segura o que existe, e a recomendação é aplicar aos 35 dias depois do plantio.

Gesso: quando ele entra mesmo

Gesso não é calcário mais forte, é outra coisa. O calcário corrige a camada em que ele foi incorporado. O gesso desce com a chuva e leva cálcio para o fundo, o que ajuda a raiz a aprofundar e a planta a atravessar veranico.

O critério é objetivo e exige amostra funda, de 40 a 60 cm: há chance de resposta ao gesso quando a saturação por alumínio nessa camada passa de 20%, ou quando o cálcio fica abaixo de 0,5. Fora disso, é dinheiro gasto sem retorno provável.

E vale a ressalva que a própria Embrapa faz: em pastagem, o uso do gesso ainda é pouco expressivo, e os benefícios da correção da acidez do fundo em capim ainda precisam ser mais bem avaliados. Ou seja: é ferramenta para caso específico, não etapa obrigatória.

A operação no campo

Duas gradagens são o mínimo, segundo a Embrapa: a pesada, ou aradora, que elimina a vegetação, e a niveladora, que destorroa e acerta a superfície.

Daí em diante o risco muda de lado. O erro deixa de ser preparar de menos e passa a ser preparar demais. O passo a passo da Embrapa diz que o destorroamento excessivo, resultante de número exagerado de gradagens, deve ser evitado a todo custo. Solo pulverizado encrosta na primeira chuva e a plantinha não vence a crosta.

Tem também o pé de grade, que é uma camada dura que a própria grade cria logo abaixo da profundidade de trabalho, e que atrapalha a raiz e a entrada de água.

O ponto de umidade certo para operar tem até nome: ponto de friabilidade. O teste é com a mão: você aperta um punhado de terra, ele se molda com facilidade e se esfarela assim que você solta. Terra molhada demais amassa e gruda; terra seca demais exige passada atrás de passada para destorroar. Esse critério vem de uma publicação da Embrapa sobre arroz, e não de pastagem, mas é física de solo e vale para qualquer preparo.

Por fim, não deixe a área pronta e descoberta esperando a chuva por muito tempo. Solo nu, como lembra a Embrapa Amazônia Oriental, sofre erosão, compacta e perde matéria orgânica.

Invasora: matar antes, não depois

Invasora é briga que se ganha antes do plantio.

Se a área tem capim velho ou mato para dessecar, vale vedar de 15 a 20 dias antes da aplicação. O motivo é fisiológico: a planta precisa de folha nova para absorver o herbicida e levá-lo até a raiz. Vedar não é frescura, é o que evita rebrota.

E a dessecação prévia muda a composição do pasto novo. Num trabalho da Embrapa Acre, a participação do capim velho no pasto formado caiu de 16,3% para 6,2% aos 70 dias quando houve dessecação antes do plantio.

Depois de dessecar, não demore. No mesmo material, atrasar a semeadura de 14 para 28 dias depois da dessecação não mudou o número de plantas no começo, mas terminou com um pasto mais infestado de invasora no fim do estabelecimento.

Dá para reformar sem arar tudo

Dá, e tem nome: plantio direto de pasto, em que a dessecação substitui o revolvimento.

A Embrapa Acre indica esse caminho principalmente para solo que não leva desaforo de máquina: relevo ondulado, solo de estrutura frágil, baixa permeabilidade ou muito arenoso, onde gradear demais custa matéria orgânica e erosão.

Tem dois limites declarados. O primeiro: o plantio direto é indicado para área de vegetação rasteira, e não para área com vegetação lenhosa. O segundo: excesso de palhada na superfície atrapalha, porque semente de capim é pequena e a plântula é frágil. E lembre do nitrogênio, que nesse sistema deixa de ser opcional.

Depois de semear, cubra a semente

Essa é a etapa que mais gente pula, e a Embrapa Acre é dura com ela: muitos pecuaristas negligenciam enterrar a semente depois do lanço, e isso é motivo frequente de fracasso na reforma. Passar grade niveladora semiaberta ou rolo compactador logo depois da semeadura incorpora a semente, aumenta o contato dela com o solo e reduz as perdas por predação.

Guarde essa última parte, porque ela responde uma dúvida comum: o que protege a semente de bicho é estar coberta, não o revestimento dela. A gente tratou disso em semente incrustada.

Duas situações em que o rolo não deve ser usado, segundo o passo a passo da Embrapa: quando chove logo depois da semeadura, porque a própria chuva já enterra a maior parte das sementes, e em solo muito argiloso, principalmente se estiver úmido.

Adubo encostado na semente

Vale um aviso separado, porque é erro comum na hora de economizar operação.

Adubo com alta capacidade de puxar água, colocado no sulco junto da semente, pode reduzir a germinação: ele rouba a água em volta da semente e chega a queimar o tecido dela. Por isso, quando a mistura de semente com adubo é feita, ela tem que ir para o chão logo em seguida.

Uma pesquisa da Unesp, publicada na Revista Brasileira de Ciência do Solo, refinou isso: com fosfatados, cloreto de potássio e formulado farelado, a emergência de Brachiaria brizantha não foi prejudicada mesmo com a mistura feita até 96 horas antes da semeadura. Já com ureia e sulfato de amônio, a germinação caiu conforme o tempo de contato aumentou. Ou seja: o problema não é todo adubo, é o adubo nitrogenado parado junto da semente.

Os erros que mais derrubam a formação

  1. Não planejar. A Embrapa Acre chama a falta de planejamento das etapas de causa mais importante de fracasso no estabelecimento.
  2. Plantar sobre material vegetal ainda fermentando. Depois da aração, é preciso esperar o material incorporado apodrecer, senão a fermentação mata a semente.
  3. Gradear demais. Solo pulverizado encrosta.
  4. Pegar área maior do que a máquina dá conta. O atraso no preparo empurra o plantio para fora da época certa.
  5. Semear e não cobrir. Já falado acima, e é o mais barato de corrigir.

Como a gente entra nessa conta

A gente vende semente, não calcário, e é por isso que insiste tanto no preparo: semente boa em área malpreparada morre igual.

Quando você fecha pedido com a gente, a primeira pergunta costuma ser como está a área e quando você pretende plantar. Se a conversa mostra que o calcário ainda nem foi aplicado, a gente prefere combinar a entrega para a janela certa a empurrar semente para um plantio que vai falhar. Se quiser conversar sobre a sua área antes de decidir, fale com o nosso time.

E se você já tem semente em casa de uma safra anterior, vale conferir antes de plantar. O passo a passo está em como fazer o teste de germinação de semente de capim.

Área que já teve cigarrinha pede um cuidado a mais na hora de reformar, porque o ovo passa a seca no solo. A gente reuniu o que a pesquisa mostra em cigarrinha das pastagens.

Perguntas frequentes

Com quanto tempo de antecedência preciso preparar a área?

Conte de três a seis meses. A análise de solo precisa sair pelo menos três meses antes do plantio, e o calcário quer no mínimo 60 dias entre a aplicação e a semeadura.

Qual a profundidade certa para coletar solo?

De 0 a 20 cm quando o objetivo é formar pastagem. A coleta de 0 a 10 cm é para adubação de manutenção, em pasto já formado.

Precisa mesmo incorporar o calcário?

Na formação, sim. O calcário incorporado corrige a camada de trabalho mais rápido que o calcário deixado na superfície. Aproveite que a área vai ser gradeada de qualquer jeito.

Dá para reformar pasto sem arar?

Dá, com plantio direto de pasto, em que a dessecação substitui o revolvimento. É indicado para área de vegetação rasteira e para solo frágil ou de relevo ondulado, e não serve para área com vegetação lenhosa. Nesse sistema o nitrogênio passa a ser necessário.

Posso misturar a semente com o adubo?

Com fosfatados, cloreto de potássio e formulado farelado, a pesquisa não achou prejuízo mesmo com mistura feita até 96 horas antes. Com ureia e sulfato de amônio, o contato prolongado derruba a germinação. Na dúvida, misture e plante no mesmo dia.

Preciso passar rolo depois de semear?

Ajuda bastante, porque aumenta o contato da semente com o solo. Mas não passe se chover logo depois da semeadura, nem em solo muito argiloso e úmido.

E se eu já perdi o prazo do calcário?

Prepare a área e plante na janela certa, e trate a correção como assunto do ano seguinte. Plantar tarde por causa do calcário costuma custar mais do que plantar sem ele, ainda mais se o capim escolhido for tolerante à acidez.