Resposta rápida: a cigarrinha passa a seca como ovo dentro do solo e acorda com a chuva. A espuma na base da touceira é a fase jovem; a folha com estrias que secam da ponta para dentro é o adulto. O sintoma só aparece por inteiro umas três semanas depois do ataque, e é por isso que aplicar inseticida quando o pasto já amarelou costuma ser dinheiro jogado fora: a praga que fez aquilo já morreu. O que funciona de verdade é a combinação de cultivar certa, pasto sem sobra de palha e monitoramento no começo das chuvas.

Como reconhecer no pasto

São dois sintomas diferentes, e eles vêm de duas fases do mesmo inseto.

A espuma na base da touceira é a ninfa. Ela vive dentro daquela massa parecida com cuspe, que a protege de ressecar. Afastando a palha com a mão, você acha o bicho ali embaixo, junto das raízes superficiais.

A estria esbranquiçada na folha é o adulto. Segundo a Embrapa Gado de Corte, “as ninfas, ao sugarem as plantas na base ou nas raízes, provocam o amarelecimento, seguido de secamento das folhas. Já os adultos, são os que causam as estrias esbranquiçadas”. Nos dois casos, quando a infestação aperta, o pasto ganha aquele aspecto geral que o pessoal chama de queima.

As folhas atacadas morrem da ponta para dentro e depois ficam retorcidas. De longe, lembra seca. E a confusão não é besteira: a pesquisa mostra que o estrago é pior justamente quando falta água no solo.

Espuma branca da ninfa da cigarrinha na base da touceira, ao lado da cigarrinha adulta preta com listras claras pousada em folha de capim.
A espuma aparece antes do bicho, e fica no pé da touceira. Fotos: massa de espuma em domínio público (CC0) e Deois flavopicta por Douglas (CC BY 4.0), via iNaturalist, recortadas.

Por que ela aparece junto com a chuva

Isso explica o calendário do problema.

Na seca, a cigarrinha está no pasto em forma de ovo, parado dentro do solo. A Embrapa registra que “durante o período seco, as cigarrinhas permanecem no solo da pastagem na fase de ovo” e que o desenvolvimento desse ovo “só ocorre com o início do período das chuvas”, que no Brasil Central acontece em setembro e outubro.

Daí em diante é rápido: as ninfas nascem dentro dos primeiros 30 dias de chuva, e o ciclo de ovo a ovo fica em torno de 50 dias. Por isso aparecem ondas sucessivas dentro da mesma estação, e não um ataque só.

Guarde esse ponto, porque ele vale dinheiro: a hora de olhar o pasto é no começo das chuvas, não quando o capim já está amarelo.

Calendário da cigarrinha das pastagens: ovo parado na seca, ninfas nos primeiros 30 dias de chuva, ciclo de 50 dias, pasto amarelando três semanas depois e postura de março a maio.
O ovo espera a chuva. Quando o pasto amarela, o inseto que fez o estrago já morreu.

O tamanho do estrago

Dois números dão a dimensão, e eles medem coisas diferentes.

No capim, a Embrapa mediu que 25 adultos por metro quadrado, em dez dias, reduziram em 34% a produção de matéria seca de Brachiaria decumbens. Junto com a quantidade, cai a qualidade: mais fibra, menos proteína e menos digestibilidade.

No boi, o estudo mais completo que existe é brasileiro, feito em 154 hectares no Tocantins com novilhas Nelore em capim-marandu, e publicado na Scientific Reports. Ele encontrou 74% menos quilos de peso vivo por hectare onde a cigarrinha não foi controlada.

Vale entender esse número direito, porque ele costuma ser contado errado. O ganho por cabeça não mudou. O que caiu foi a lotação: como sobrou muito menos capim, coube muito menos boi na área. Não é que o animal engordou menos; é que você cria menos animais no mesmo pasto.

Capim resistente: o que a pesquisa realmente mostra

Aqui está a parte que muda a conversa na hora da compra, e ela tem uma regra que quase ninguém diz: resistência não é geral, é contra uma espécie de cigarrinha específica.

Existem as cigarrinhas típicas de pastagem, como a Deois e a Notozulia, e existe o grupo Mahanarva, de porte maior e maior capacidade de dano, que veio da cana. Um capim pode segurar bem as primeiras e sofrer com as segundas.

Comparação entre a cigarrinha típica das pastagens, preta com listras brancas, e a cigarrinha Mahanarva, avermelhada, que veio da cana.
Capim resistente a uma delas pode ser derrubado pela outra. Fotos: Notozulia entreriana por Helio Lourencini e Mahanarva fimbriolata por Maria Eduarda Manini Soutelo (CC BY 4.0), via iNaturalist, recortadas.
Capim do nosso catálogoCigarrinhas típicas (Deois, Notozulia)Mahanarva
Maranduresistência comprovada em ensaio de 2009; tabela da Embrapa de 2020 a classifica como suscetívelsuscetível
Piatãresistentesuscetível
MG-5, conhecido como Xaraéssuscetívelsuscetível
Basilisk (Decumbens)suscetível, é o padrão de comparação de capim suscetívelsuscetível
Ruziziensissuscetívelsem estudo encontrado
Humidicolaresistente por tolerância, não por matar o insetosem informação na tabela
Llanerolançada como resistente na Colômbia, mas estudos posteriores mostraram que é excelente hospedeirasem estudo encontrado
Mombaçaresistentesuscetível
Tanzâniaresistentesuscetível
Massairesistente, com antibiose confirmadasuscetível
MG-4, Aruana, Miyaguinão encontramos estudonão encontramos estudo

Quatro observações que a tabela não comporta.

A Marandu tem duas respostas, e as duas são da Embrapa. A publicação de 2009, escrita pelo pesquisador que conduziu os ensaios, mostra a Marandu resistindo às cigarrinhas típicas, com 45% de sobrevivência das ninfas contra 76% na Basilisk. Já a tabela publicada em 2020, num capítulo da Embrapa sobre pragas de pastagem na Amazônia, lista a Marandu como suscetível aos dois grupos. A gente mostra as duas porque é o que existe. Na prática, o produtor de Marandu não deve se considerar protegido.

A Humidicola resiste de um jeito diferente. Ela não mata o inseto, ela aguenta o ataque. O problema é que, aguentando, ela deixa a população crescer, e a própria Embrapa registra que a infestação subiu a ponto de causar dano até nela.

A Massai é um caso de meio termo. A antibiose dela contra a ninfa é comprovada, com só 4% de sobrevivência, mas outro trabalho da Embrapa mostrou que ela é pouco tolerante ao dano do adulto.

MG-4, Aruana e Miyagui não têm estudo publicado de resistência à cigarrinha. A gente não vai inferir por parecença com parentes próximos, porque a própria Embrapa adverte contra isso: um mesmo capim já se mostrou resistente a uma espécie de cigarrinha num país e suscetível a outra espécie no Brasil, e a conclusão deles é que “devem-se evitar generalizações”.

Resistência não é escudo

Mesmo com cultivar resistente, três cuidados continuam valendo.

O primeiro é não transformar a fazenda inteira num pasto só. A Embrapa recomenda manter pelo menos 30% da área com gramíneas resistentes e evitar grandes extensões de uma única espécie, mesmo resistente, porque existe o risco de ela ser superada.

O segundo é entender que dano por Mahanarva em capim resistente às típicas não significa que a resistência falhou. São alvos diferentes.

O terceiro é o consórcio com leguminosa, que a Embrapa também sugere: a cigarrinha come gramínea, então leguminosa na área não alimenta a praga.

O que o manejo do pasto resolve

Essa é a parte barata, e ela funciona porque ataca o berçário do inseto.

A palha acumulada no chão cria o ambiente úmido e sombreado onde o ovo e a ninfa se dão bem. Reduzir essa palha reduz a praga. A Embrapa mediu o efeito da carga animal em Brachiaria decumbens: com 1 unidade animal por hectare havia cerca de 100 ninfas por metro quadrado, e com 1,7 unidade por hectare esse número caiu para perto de 61.

Tem uma questão de calendário aqui, e vale respeitar:

  • Janeiro e fevereiro, no Brasil Central, são os meses de limpar. É quando sobra mais forragem, e é a hora de não deixar palha acumulada.
  • Março a maio é quando a fêmea põe o ovo que vai dormir até a próxima chuva. Chegar nessa janela com o pasto raspado significa menos ovo guardado para o ano seguinte.
  • No pico do ataque, pisar firme demais piora. Para a Amazônia, a Embrapa recomenda manter capim de touceira entre 40 e 45 cm e capim rasteiro entre 25 e 30 cm, e evitar o superpastejo justamente no período de maior ocorrência.

Ou seja: raspar é estratégia de entressafra do inseto, não de hora do aperto.

Controle biológico e controle químico

O fungo Metarhizium anisopliae é a alternativa biológica reconhecida. Duas condições mudam o resultado: o alvo é a ninfa, não o adulto, e o pasto precisa estar entre 25 e 40 cm de altura, porque em pasto raspado o sol destrói o fungo. A vantagem prática é que não precisa tirar os animais da área. A ressalva é da própria Embrapa: os resultados têm sido inconsistentes, o que limita em parte a recomendação.

No químico, o alvo é o adulto, na emergência. A Embrapa é explícita: o adulto está exposto na folha, enquanto a ninfa está no chão, protegida pela espuma. Aplicar mirando a ninfa é desperdiçar produto.

A gente não publica nome de produto nem dose aqui, por dois motivos. O primeiro é que isso é receituário, e quem assina é o agrônomo. O segundo é que a lista de ingredientes registrados muda: a publicação de 2009 cita quatro ingredientes, e vários passaram por reavaliação depois disso. Peça ao seu agrônomo a recomendação com o registro válido hoje.

Como monitorar sem complicar

A rotina que a Embrapa descreve para a Amazônia é simples o bastante para qualquer fazenda, e serve de modelo:

  • Vistorie a cada 15 dias durante o período chuvoso.
  • Para contar ninfa, jogue um quadrado de 0,25 a 1 metro quadrado em pelo menos cinco pontos a cada 10 hectares, e conte as espumas.
  • Para contar adulto, use rede de 40 cm fazendo redadas em cinco trechos de 30 metros a cada 10 hectares.

Os níveis publicados ali começam a indicar aplicação em faixas a partir de 6 ninfas por metro quadrado, e aplicação em toda a área acima de 25. Vale dizer, com honestidade, que a própria Embrapa Gado de Corte registra que faltam níveis de dano validados para orientar a decisão do produtor. Use como referência, não como lei.

O que não funciona

Aplicar quando o pasto amarela. O sintoma leva cerca de três semanas para aparecer por inteiro, e o adulto vive uns dez dias. Quando você vê a queima, a população que causou aquilo já morreu. A Embrapa é direta: inseticida nesse momento “erroneamente” aplicado.

Confiar no rótulo de resistente sem olhar a espécie. O caso do Llanero está na literatura: lançado como resistente na Colômbia e depois identificado como excelente hospedeiro para as ninfas.

Usar semente de varredura. A Embrapa recomenda evitar, porque existe risco de levar ovo de cigarrinha junto para dentro da sua área. Semente de origem conhecida não é só qualidade de estande, é também sanidade da fazenda.

A cigarrinha costuma ser o sintoma, não a doença

Vale terminar com a parte que o setor não gosta de falar.

A Embrapa registra que a cigarrinha pode acelerar a degradação, mas que esses insetos “não devem ser considerados como fatores principais nesse processo”. O que está por baixo costuma ser solo compactado, fertilidade baixa e raiz fraca. Pasto bem formado e bem nutrido sofre menos, e o próprio estudo mostra que o dano é mais severo onde falta água.

Dito de outro jeito: se a cigarrinha derrubou o seu pasto, ela provavelmente encontrou um pasto que já estava fraco. O caminho de fundo passa por preparar bem a área e por escolher a cultivar certa para o seu solo.

Como a gente ajuda nessa decisão

A gente vende semente, e por isso é honesto dizer onde a semente resolve e onde não resolve. Trocar de cultivar ajuda contra as cigarrinhas típicas, e a tabela acima mostra exatamente quais do nosso catálogo têm estudo a favor e quais não têm. Contra Mahanarva, nenhum capim do catálogo aparece como resistente na literatura, e quem disser o contrário precisa mostrar a fonte.

Se você vai reformar uma área que já teve cigarrinha, a conversa muda: entra a escolha de cultivar, entra a ideia de não repetir a mesma espécie em toda a fazenda, e entra o calendário de plantio. Fale com o nosso time que a gente monta isso com você.

Perguntas frequentes

O que é a espuma branca no meu pasto?

É a ninfa da cigarrinha, a fase jovem do inseto. Ela vive dentro dessa espuma na base da touceira, junto das raízes superficiais, e suga a planta ali.

Por que a cigarrinha aparece sempre no começo da chuva?

Porque na seca ela fica no solo em forma de ovo parado. O desenvolvimento desse ovo só começa com a chuva, e as ninfas nascem nos primeiros 30 dias da estação.

Qual capim é resistente à cigarrinha?

Depende da espécie de cigarrinha. Contra as típicas de pastagem, há estudo a favor de Piatã, Mombaça, Tanzânia e Massai, e a Humidicola resiste por tolerância. Contra o grupo Mahanarva, nenhum capim do nosso catálogo aparece como resistente na literatura.

Marandu é resistente à cigarrinha?

Há duas respostas da Embrapa. Um trabalho de 2009 mostra resistência às cigarrinhas típicas, e uma tabela de 2020 classifica a Marandu como suscetível. Contra Mahanarva, as duas fontes concordam que não há proteção.

Quando aplicar o controle?

Olhando o pasto no começo das chuvas, não depois que ele amarelou. Quando o sintoma aparece, cerca de três semanas depois do ataque, a população que causou o dano já morreu.

Pastejar mais forte ajuda a controlar?

Ajuda a reduzir a palha acumulada, que é onde o ovo e a ninfa se dão bem, e isso vale principalmente nos meses de mais forragem e na janela de postura dos ovos. No pico do ataque, porém, o excesso de pastejo piora o estrago.

Dá para usar fungo em vez de veneno?

Dá, com o Metarhizium anisopliae, mirando a ninfa e com o pasto entre 25 e 40 cm para o sol não destruir o fungo. Não precisa tirar os animais. A ressalva é que os resultados têm sido inconsistentes.