Cigarrinha das pastagens: como reconhecer, e o que a pesquisa diz que funciona
Resposta rápida: a cigarrinha passa a seca como ovo dentro do solo e acorda com a chuva. A espuma na base da touceira é a fase jovem; a folha com estrias que secam da ponta para dentro é o adulto. O sintoma só aparece por inteiro umas três semanas depois do ataque, e é por isso que aplicar inseticida quando o pasto já amarelou costuma ser dinheiro jogado fora: a praga que fez aquilo já morreu. O que funciona de verdade é a combinação de cultivar certa, pasto sem sobra de palha e monitoramento no começo das chuvas.
Como reconhecer no pasto
São dois sintomas diferentes, e eles vêm de duas fases do mesmo inseto.
A espuma na base da touceira é a ninfa. Ela vive dentro daquela massa parecida com cuspe, que a protege de ressecar. Afastando a palha com a mão, você acha o bicho ali embaixo, junto das raízes superficiais.
A estria esbranquiçada na folha é o adulto. Segundo a Embrapa Gado de Corte, “as ninfas, ao sugarem as plantas na base ou nas raízes, provocam o amarelecimento, seguido de secamento das folhas. Já os adultos, são os que causam as estrias esbranquiçadas”. Nos dois casos, quando a infestação aperta, o pasto ganha aquele aspecto geral que o pessoal chama de queima.
As folhas atacadas morrem da ponta para dentro e depois ficam retorcidas. De longe, lembra seca. E a confusão não é besteira: a pesquisa mostra que o estrago é pior justamente quando falta água no solo.

Por que ela aparece junto com a chuva
Isso explica o calendário do problema.
Na seca, a cigarrinha está no pasto em forma de ovo, parado dentro do solo. A Embrapa registra que “durante o período seco, as cigarrinhas permanecem no solo da pastagem na fase de ovo” e que o desenvolvimento desse ovo “só ocorre com o início do período das chuvas”, que no Brasil Central acontece em setembro e outubro.
Daí em diante é rápido: as ninfas nascem dentro dos primeiros 30 dias de chuva, e o ciclo de ovo a ovo fica em torno de 50 dias. Por isso aparecem ondas sucessivas dentro da mesma estação, e não um ataque só.
Guarde esse ponto, porque ele vale dinheiro: a hora de olhar o pasto é no começo das chuvas, não quando o capim já está amarelo.

O tamanho do estrago
Dois números dão a dimensão, e eles medem coisas diferentes.
No capim, a Embrapa mediu que 25 adultos por metro quadrado, em dez dias, reduziram em 34% a produção de matéria seca de Brachiaria decumbens. Junto com a quantidade, cai a qualidade: mais fibra, menos proteína e menos digestibilidade.
No boi, o estudo mais completo que existe é brasileiro, feito em 154 hectares no Tocantins com novilhas Nelore em capim-marandu, e publicado na Scientific Reports. Ele encontrou 74% menos quilos de peso vivo por hectare onde a cigarrinha não foi controlada.
Vale entender esse número direito, porque ele costuma ser contado errado. O ganho por cabeça não mudou. O que caiu foi a lotação: como sobrou muito menos capim, coube muito menos boi na área. Não é que o animal engordou menos; é que você cria menos animais no mesmo pasto.
Capim resistente: o que a pesquisa realmente mostra
Aqui está a parte que muda a conversa na hora da compra, e ela tem uma regra que quase ninguém diz: resistência não é geral, é contra uma espécie de cigarrinha específica.
Existem as cigarrinhas típicas de pastagem, como a Deois e a Notozulia, e existe o grupo Mahanarva, de porte maior e maior capacidade de dano, que veio da cana. Um capim pode segurar bem as primeiras e sofrer com as segundas.

| Capim do nosso catálogo | Cigarrinhas típicas (Deois, Notozulia) | Mahanarva |
|---|---|---|
| Marandu | resistência comprovada em ensaio de 2009; tabela da Embrapa de 2020 a classifica como suscetível | suscetível |
| Piatã | resistente | suscetível |
| MG-5, conhecido como Xaraés | suscetível | suscetível |
| Basilisk (Decumbens) | suscetível, é o padrão de comparação de capim suscetível | suscetível |
| Ruziziensis | suscetível | sem estudo encontrado |
| Humidicola | resistente por tolerância, não por matar o inseto | sem informação na tabela |
| Llanero | lançada como resistente na Colômbia, mas estudos posteriores mostraram que é excelente hospedeira | sem estudo encontrado |
| Mombaça | resistente | suscetível |
| Tanzânia | resistente | suscetível |
| Massai | resistente, com antibiose confirmada | suscetível |
| MG-4, Aruana, Miyagui | não encontramos estudo | não encontramos estudo |
Quatro observações que a tabela não comporta.
A Marandu tem duas respostas, e as duas são da Embrapa. A publicação de 2009, escrita pelo pesquisador que conduziu os ensaios, mostra a Marandu resistindo às cigarrinhas típicas, com 45% de sobrevivência das ninfas contra 76% na Basilisk. Já a tabela publicada em 2020, num capítulo da Embrapa sobre pragas de pastagem na Amazônia, lista a Marandu como suscetível aos dois grupos. A gente mostra as duas porque é o que existe. Na prática, o produtor de Marandu não deve se considerar protegido.
A Humidicola resiste de um jeito diferente. Ela não mata o inseto, ela aguenta o ataque. O problema é que, aguentando, ela deixa a população crescer, e a própria Embrapa registra que a infestação subiu a ponto de causar dano até nela.
A Massai é um caso de meio termo. A antibiose dela contra a ninfa é comprovada, com só 4% de sobrevivência, mas outro trabalho da Embrapa mostrou que ela é pouco tolerante ao dano do adulto.
MG-4, Aruana e Miyagui não têm estudo publicado de resistência à cigarrinha. A gente não vai inferir por parecença com parentes próximos, porque a própria Embrapa adverte contra isso: um mesmo capim já se mostrou resistente a uma espécie de cigarrinha num país e suscetível a outra espécie no Brasil, e a conclusão deles é que “devem-se evitar generalizações”.
Resistência não é escudo
Mesmo com cultivar resistente, três cuidados continuam valendo.
O primeiro é não transformar a fazenda inteira num pasto só. A Embrapa recomenda manter pelo menos 30% da área com gramíneas resistentes e evitar grandes extensões de uma única espécie, mesmo resistente, porque existe o risco de ela ser superada.
O segundo é entender que dano por Mahanarva em capim resistente às típicas não significa que a resistência falhou. São alvos diferentes.
O terceiro é o consórcio com leguminosa, que a Embrapa também sugere: a cigarrinha come gramínea, então leguminosa na área não alimenta a praga.
O que o manejo do pasto resolve
Essa é a parte barata, e ela funciona porque ataca o berçário do inseto.
A palha acumulada no chão cria o ambiente úmido e sombreado onde o ovo e a ninfa se dão bem. Reduzir essa palha reduz a praga. A Embrapa mediu o efeito da carga animal em Brachiaria decumbens: com 1 unidade animal por hectare havia cerca de 100 ninfas por metro quadrado, e com 1,7 unidade por hectare esse número caiu para perto de 61.
Tem uma questão de calendário aqui, e vale respeitar:
- Janeiro e fevereiro, no Brasil Central, são os meses de limpar. É quando sobra mais forragem, e é a hora de não deixar palha acumulada.
- Março a maio é quando a fêmea põe o ovo que vai dormir até a próxima chuva. Chegar nessa janela com o pasto raspado significa menos ovo guardado para o ano seguinte.
- No pico do ataque, pisar firme demais piora. Para a Amazônia, a Embrapa recomenda manter capim de touceira entre 40 e 45 cm e capim rasteiro entre 25 e 30 cm, e evitar o superpastejo justamente no período de maior ocorrência.
Ou seja: raspar é estratégia de entressafra do inseto, não de hora do aperto.
Controle biológico e controle químico
O fungo Metarhizium anisopliae é a alternativa biológica reconhecida. Duas condições mudam o resultado: o alvo é a ninfa, não o adulto, e o pasto precisa estar entre 25 e 40 cm de altura, porque em pasto raspado o sol destrói o fungo. A vantagem prática é que não precisa tirar os animais da área. A ressalva é da própria Embrapa: os resultados têm sido inconsistentes, o que limita em parte a recomendação.
No químico, o alvo é o adulto, na emergência. A Embrapa é explícita: o adulto está exposto na folha, enquanto a ninfa está no chão, protegida pela espuma. Aplicar mirando a ninfa é desperdiçar produto.
A gente não publica nome de produto nem dose aqui, por dois motivos. O primeiro é que isso é receituário, e quem assina é o agrônomo. O segundo é que a lista de ingredientes registrados muda: a publicação de 2009 cita quatro ingredientes, e vários passaram por reavaliação depois disso. Peça ao seu agrônomo a recomendação com o registro válido hoje.
Como monitorar sem complicar
A rotina que a Embrapa descreve para a Amazônia é simples o bastante para qualquer fazenda, e serve de modelo:
- Vistorie a cada 15 dias durante o período chuvoso.
- Para contar ninfa, jogue um quadrado de 0,25 a 1 metro quadrado em pelo menos cinco pontos a cada 10 hectares, e conte as espumas.
- Para contar adulto, use rede de 40 cm fazendo redadas em cinco trechos de 30 metros a cada 10 hectares.
Os níveis publicados ali começam a indicar aplicação em faixas a partir de 6 ninfas por metro quadrado, e aplicação em toda a área acima de 25. Vale dizer, com honestidade, que a própria Embrapa Gado de Corte registra que faltam níveis de dano validados para orientar a decisão do produtor. Use como referência, não como lei.
O que não funciona
Aplicar quando o pasto amarela. O sintoma leva cerca de três semanas para aparecer por inteiro, e o adulto vive uns dez dias. Quando você vê a queima, a população que causou aquilo já morreu. A Embrapa é direta: inseticida nesse momento “erroneamente” aplicado.
Confiar no rótulo de resistente sem olhar a espécie. O caso do Llanero está na literatura: lançado como resistente na Colômbia e depois identificado como excelente hospedeiro para as ninfas.
Usar semente de varredura. A Embrapa recomenda evitar, porque existe risco de levar ovo de cigarrinha junto para dentro da sua área. Semente de origem conhecida não é só qualidade de estande, é também sanidade da fazenda.
A cigarrinha costuma ser o sintoma, não a doença
Vale terminar com a parte que o setor não gosta de falar.
A Embrapa registra que a cigarrinha pode acelerar a degradação, mas que esses insetos “não devem ser considerados como fatores principais nesse processo”. O que está por baixo costuma ser solo compactado, fertilidade baixa e raiz fraca. Pasto bem formado e bem nutrido sofre menos, e o próprio estudo mostra que o dano é mais severo onde falta água.
Dito de outro jeito: se a cigarrinha derrubou o seu pasto, ela provavelmente encontrou um pasto que já estava fraco. O caminho de fundo passa por preparar bem a área e por escolher a cultivar certa para o seu solo.
Como a gente ajuda nessa decisão
A gente vende semente, e por isso é honesto dizer onde a semente resolve e onde não resolve. Trocar de cultivar ajuda contra as cigarrinhas típicas, e a tabela acima mostra exatamente quais do nosso catálogo têm estudo a favor e quais não têm. Contra Mahanarva, nenhum capim do catálogo aparece como resistente na literatura, e quem disser o contrário precisa mostrar a fonte.
Se você vai reformar uma área que já teve cigarrinha, a conversa muda: entra a escolha de cultivar, entra a ideia de não repetir a mesma espécie em toda a fazenda, e entra o calendário de plantio. Fale com o nosso time que a gente monta isso com você.
Perguntas frequentes
O que é a espuma branca no meu pasto?
É a ninfa da cigarrinha, a fase jovem do inseto. Ela vive dentro dessa espuma na base da touceira, junto das raízes superficiais, e suga a planta ali.
Por que a cigarrinha aparece sempre no começo da chuva?
Porque na seca ela fica no solo em forma de ovo parado. O desenvolvimento desse ovo só começa com a chuva, e as ninfas nascem nos primeiros 30 dias da estação.
Qual capim é resistente à cigarrinha?
Depende da espécie de cigarrinha. Contra as típicas de pastagem, há estudo a favor de Piatã, Mombaça, Tanzânia e Massai, e a Humidicola resiste por tolerância. Contra o grupo Mahanarva, nenhum capim do nosso catálogo aparece como resistente na literatura.
Marandu é resistente à cigarrinha?
Há duas respostas da Embrapa. Um trabalho de 2009 mostra resistência às cigarrinhas típicas, e uma tabela de 2020 classifica a Marandu como suscetível. Contra Mahanarva, as duas fontes concordam que não há proteção.
Quando aplicar o controle?
Olhando o pasto no começo das chuvas, não depois que ele amarelou. Quando o sintoma aparece, cerca de três semanas depois do ataque, a população que causou o dano já morreu.
Pastejar mais forte ajuda a controlar?
Ajuda a reduzir a palha acumulada, que é onde o ovo e a ninfa se dão bem, e isso vale principalmente nos meses de mais forragem e na janela de postura dos ovos. No pico do ataque, porém, o excesso de pastejo piora o estrago.
Dá para usar fungo em vez de veneno?
Dá, com o Metarhizium anisopliae, mirando a ninfa e com o pasto entre 25 e 40 cm para o sol não destruir o fungo. Não precisa tirar os animais. A ressalva é que os resultados têm sido inconsistentes.