Resposta rápida: comece pela sua área, não pelo capim. Primeiro veja se o terreno encharca, porque isso elimina a maior parte das opções de uma vez. Depois veja como está a fertilidade da terra hoje, não como você gostaria que estivesse. Só então escolha a cultivar. Quem faz o caminho contrário planta capim bom em lugar errado, e capim bom em lugar errado não fica em pé.

Existe um jeito comum de errar essa escolha, e é olhar primeiro para o número de produtividade. O capim mais produtivo do catálogo é o mais produtivo nas condições dele. Na sua baixada que alaga, ou na sua área arenosa que ainda não recebeu correção, ele pode entregar menos que uma cultivar de fama modesta.

A escolha é de uma safra inteira, e dá para acertar de primeira. Este artigo é o caminho que a gente percorre com o produtor no telefone.

Primeira pergunta: a área encharca?

Essa é a pergunta que corta mais opções, e é por isso que ela vem antes de todas.

Raiz de capim precisa de ar. Quando a água fica parada, o oxigênio some do solo e a raiz apodrece, por melhor que seja a semente. Não é questão de dose nem de adubo: é questão de a planta conseguir respirar.

Se a sua área tem parte baixa que segura água depois da chuva, ou várzea, ou solo que não deixa a água escorrer, a lista encolhe para poucas cultivares. As três que mais aguentam umidade no nosso catálogo são estas:

Três cortes de solo lado a lado mostrando a ordem de tolerância a encharcamento: Humidicola aguenta mais água parada, Llanero fica no meio e Marandu precisa de terra que escorre.
Ordem de tolerância a encharcamento, segundo a UNESP de Jaboticabal.
  • Humidicola é a mais tolerante a solo encharcado, e também a que se vira melhor em terra fraca. O preço disso é que ela tem valor nutritivo menor que as outras, ou seja, o gado engorda mais devagar nela. É a escolha de quem tem uma área difícil e quer que ela produza alguma coisa em vez de nada.
  • Llanero fica no meio do caminho. Segundo o material de espécies forrageiras da UNESP de Jaboticabal, ela tem mais tolerância a encharcamento que a Marandu e menos que a Humidicola, se adapta a solos ácidos e de baixa fertilidade, e ainda aguenta bem a seca. A folha dela é mais macia que a da Humidicola e o gado aceita melhor. É uma boa saída para quem quer tolerância a umidade sem abrir mão de qualidade.
  • Piatã não é capim de brejo, mas o mesmo material da UNESP registra que ela tem maior tolerância a solo úmido que a Marandu. Serve para aquela área que não alaga, mas fica pesada e demora a secar.

Se a sua área é bem drenada, ótimo: você tem o catálogo inteiro na mão, e a próxima pergunta é a fertilidade.

Segunda pergunta: como está a terra hoje

Aqui vale a mesma honestidade. A conta é com a terra que você tem, não com a que você pretende ter depois da correção.

Cada cultivar do nosso catálogo tem a exigência de fertilidade publicada na ficha dela. Reunimos as 13 aqui, da que menos pede para a que mais pede, e onde existe publicação da Embrapa sobre a cultivar a gente cita junto:

CultivarFertilidade que ela pedeO que costuma decidir
Humidicolabaixa e médiaa que mais aguenta água parada. Valor nutritivo menor
Llanerobaixa e médiaaguenta umidade e seca, folha mais macia que a Humidicola
MG-4baixa a médiafeita para solo arenoso, alta tolerância à seca. Ponto fraco: cigarrinha
Massaimédia a baixaum Panicum que não exige terra corrigida
Basilisk (Decumbens)de baixa a altao mais flexível quanto a solo. Ponto fraco: cigarrinha
Ruziziensismédiamais para cobertura e palhada do que para pasto permanente
Piatãmédia e boaarenoso, e aguenta solo úmido melhor que a Marandu
Marandumédia e altaa mais plantada do país, o padrão de comparação
MG-5 (Xaraés)média e altasegura a qualidade na seca, floresce mais tarde
Aruanamédia a altaporte baixo. É a que se destaca com ovino
Miyaguimédia a altao mais produtivo do catálogo, e tolerante à cigarrinha
Mombaçaaltaestabelece rápido e fecha o solo quando a terra deixa
Tanzâniaaltaacompanha a Mombaça, serve a todas as fases da criação

Quatro observações que não cabem na tabela.

A Marandu é o padrão de comparação do país, e não é à toa. A publicação da Embrapa sobre escolha das forrageiras registra que ela foi lançada como alternativa para cerrado de média e boa fertilidade, e hoje é a forrageira perene tropical com maior volume de semente vendido no Brasil. Quando alguém diz “braquiária” sem sobrenome, normalmente está falando dela.

O Aruana tem uma vocação que as outras não têm: o material de espécies forrageiras da UNESP de Jaboticabal registra que ele vem sendo usado com sucesso no pastejo com ovino, por causa do porte mais baixo. Se você trabalha com ovelha, comece por ele.

MG-5 e Xaraés são o mesmo capim. Vale saber disso na hora de comparar orçamento, porque um fornecedor pode chamar de um jeito e outro de outro, e você pensar que são produtos diferentes. É a mesma planta, coletada no Burundi, na África, e lançada pela Embrapa em 2003. No mercado ela também aparece como Toledo.

A cigarrinha-das-pastagens aparece três vezes na tabela e merece atenção. Se na sua região ela é problema conhecido, isso pesa tanto quanto a fertilidade na hora de escolher, e vale conversar antes de fechar.

O erro mais caro: escolher por gênero

Circula muito por aí uma regra simples: Brachiaria é para terra fraca, Panicum é para terra boa. É prática, é fácil de lembrar, e está errada.

Olhe a tabela acima de novo e a regra cai sozinha, em dois lugares.

Dentro da própria Brachiaria: a Ruziziensis pede mais fertilidade que a decumbens, é pouco tolerante à seca, pouco tolerante a solo encharcado e suscetível à cigarrinha-das-pastagens. Isso está no material da UNESP e bate com a nossa ficha.

E entre os gêneros: o Massai é um Panicum que vai em terra de média a baixa fertilidade, enquanto a Ruziziensis, uma Brachiaria, pede média. Nesse par, o Panicum exige menos que a Brachiaria, o contrário exato da regra.

O gênero diz de que família a planta é. Ele não diz o que ela aguenta. A escolha é sempre por cultivar.

Aproveitando a Ruziziensis: ela é a que mais foge do papel de pasto permanente no catálogo. O uso principal dela hoje é cobertura de solo e produção de palhada, em área de lavoura e de rotação. Se é isso que você procura, ela é candidata. Se você quer pasto para o ano inteiro, provavelmente não é ela.

O que fazer depois de escolher

Escolher certo é metade. A outra metade é o lote.

A mesma cultivar, em dois sacos diferentes, não planta a mesma área. O que muda é quanto daquele saco é semente boa de verdade. Por isso a quantidade por hectare não é número fixo, e por isso a gente informa a qualidade do lote em cada pedido.

Se quiser conferir com as próprias mãos antes de plantar, dá para fazer um teste simples em casa. A gente escreveu o passo a passo em como fazer o teste de germinação de semente de capim. É um canteiro pequeno e meia hora de trabalho, e você entra no plantio sabendo o que tem na mão em vez de descobrir trinta dias depois.

Vale olhar também se a semente incrustada faz sentido para o seu caso, porque ela muda o peso do saco e, com isso, a quantidade.

O que a gente confere antes de o saco sair daqui

A gente beneficia a semente em unidade própria. Cada lote passa pela nossa conferência antes de ser fechado, e sai identificado, com a informação daquele lote e não da média da safra.

Isso importa para a escolha da cultivar por um motivo direto: só dá para conversar sobre a sua área com seriedade se, do outro lado, alguém souber o que está dentro do saco. Recomendação de cultivar sem conhecimento do lote é palpite bem-intencionado.

O catálogo completo está nas páginas de Brachiaria e de Panicum, cada cultivar com a sua ficha. E se a decisão ainda estiver em aberto, fale com o nosso time. A gente prefere ajudar a escolher antes do que explicar depois.

Escolhida a cultivar, falta acertar a data. A janela de plantio muda de capim para capim, e plantar na primeira chuva isolada costuma custar o lote. A gente explica em quando plantar capim.

Perguntas frequentes

Qual o melhor capim para plantar?

Não existe melhor no geral, existe melhor para a sua área. A ordem das perguntas é: o terreno encharca, como está a fertilidade hoje, e o que você quer do pasto. Uma cultivar de fama modesta na área certa entrega mais que a mais produtiva do catálogo na área errada.

Qual capim aguenta solo encharcado?

A Humidicola é a mais tolerante a solo encharcado e também a que melhor se vira em terra fraca, com o custo de ter valor nutritivo menor. A Llanero fica no meio termo, com mais tolerância que a Marandu e menos que a Humidicola, e tem folha mais macia.

Qual capim é melhor para solo arenoso?

Duas respostas, conforme a fertilidade. Se a terra é arenosa e fraca, a MG-4 é a indicada: ela pede de baixa a média fertilidade e tem alta tolerância à seca. Se a terra é arenosa mas já tem fertilidade média, a Piatã se adapta bem, e ainda aguenta solo úmido melhor que a Marandu.

Brachiaria é para terra fraca e Panicum para terra boa?

Não, e falha dos dois lados. Dentro da Brachiaria, a Ruziziensis pede mais fertilidade que a decumbens. E entre os gêneros, o Massai é um Panicum que vai em terra de média a baixa fertilidade, menos exigente que a Ruziziensis, que é Brachiaria. A escolha correta é sempre por cultivar, nunca por gênero.

Qual capim escolher para ovino?

O Aruana vem sendo usado com sucesso em pastejo com ovino por causa do porte mais baixo, segundo o material de espécies forrageiras da UNESP de Jaboticabal. Ele pede terra de média a alta fertilidade.